Jesus Cristo (Pequena Biografia)
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Jesus Cristo (Pequena Biografia)


JESUS CRISTO
Profeta, que muitos dizem ser o Messias: c.06 a.C. – c.30 d.C
Por: Fernando Correia da Silva

QUANDO TUDO ACONTECEU...
c.6 a.C.: Nasce Jesus, em Belém. Correm profecias de que ele é o Cristo, o Messias, o futuro rei dos Hebreus. Em consequência, Herodes manda matar todas as crianças daquela cidade. A família de Jesus foge para o Vale do Nilo. - c.2 a.C.: Morre Herodes. A família de Jesus regressa à Galileia. - c.1: Jesus, menino, discute o Reino de Deus com os rabinos da Sinagoga. - 18: Caifás, sumo-sacerdote em Jerusalém. - c.24: No rio Jordão o profeta João baptiza Jesus. Este inicia a sua pregação pela Galileia e Jerusalém. É hostilizado pelas autoridades religiosas. - 25: Pôncio Pilatos procurador romano da Judeia. - c.30: Jesus é traído por Judas Iscariote, seu discípulo. É entregue às autoridades religiosas hebraicas e depois a Pôncio Pilatos. É condenado, flagelado e crucificado. Morre no monte Gólgota. Correm rumores da sua posterior ressurreição.



JERUSALÉM
O meu nome não interessa. Vi, ouvi, sinto-me obrigado a relatar. A quem? Talvez a mim, a ver se de vez acordo. Talvez a todos os mortais entre os quais eu durmo. Acredite quem quiser. Quem não quiser, pois siga o seu caminho. Com Deus ou com os Deuses. Sem Um ou sem os Outros. Mesmo dormindo, cada qual é dono do seu destino.

Depois de três anos de ausência em Roma, acabo de chegar a Jerusalém. Venho passar a Páscoa com o meu filho. Já que ele não pode ir a casa do pai, venho eu à casa dele. Anoitece. Está diferente a minha cidade natal, o povo anda agitado. Apressados, andam todos de um lado para o outro, não param para saudar ou conversar. Um jovem cruza comigo. Detenho-o. Terá pouco mais que 30 anos, barba rala, fronte alta. Pergunto-lhe o que está a acontecer, por que andam todos tão inquietos. Fita-me, demora-se, olhos negros que me varam:

- Acorda!

- Não estou a dormir.

- É o que tu pensas.

Afasta-se. No sol poente de súbito vejo Aleph, a primeira letra do nosso alfabeto. Rubra de verde sombra, clarão sem luz e tudo começa a correr mais depressa, nem acima nem abaixo, nem à frente nem atrás, o antes e o depois fundidos no agora, e tudo vejo de repente, tudo ouço, tudo sei. Dois homens afastam-se ao fim da rua. Muito longe estão de mim mas bem os ouço: que as autoridades andam em busca de Jesus da Nazaré, que ninguém sabe aonde pousa. Murmuram os seus receios e logo vejo o nazareno a entrar em Jerusalém. Mas isso, por dentro sei que foi na manhã deste mesmo dia e agora é noite. Montado num jumento e o povo a aclamá-lo às portas da cidade, hossana! bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino do nosso pai David! mantos no chão, ramos no ar. Vejo que se dirige ao templo. Vejo que enxota cabras e ovelhas para fora do território sagrado. Vejo que derruba os tabuleiros de vendilhões e cambistas. Expulsa-os, ouço-o gritar não se trata assim a casa do meu Pai. E quando pronuncia a palavra Pai, deslumbra-me a irmandade a que pertenço. Hebreu, irmão sou eu de hebreus. Homem, irmão sou eu dos homens, qual seja a sua raça, qual seja a sua fé. Deslumbramento mas reparo que irado está Jesus. Aponta o dedo a fariseus e saduceus, os conservadores da Lei, uns e outros sacerdotes, hipócritas! Sois como os sepulcros caiados. Formosos por fora, por dentro a podridão. Vejo que se retira, vejo que chora. Ouço que diz para os seus discípulos não ficará pedra sobre pedra. Vejo que se dirige para o Monte das Oliveiras. E mais não vejo, mais não ouço. De olhos abertos continuo eu, mas sei que sono, onde o jovem que me acordou?

Resolvo não bater hoje à porta do meu filho, assim perturbado não quero rever minha família. Na hospedaria todos falam a respeito de Jesus. Uns dizem que ele é o ungido de Deus, o Cristo, o Salvador, o Messias prometido que irá conduzir os hebreus a sacudir o jugo romano. Opinam outros que nada disso, é apenas um Essénio a arrastar o povo, como bem o demonstra o seu desprezo pelos bens do mundo. Aliás, entre a adolescência e o início da pregação na Galileia, onde estivera ele? Pois em ascese entre a seita dos Essénios... Há também quem berre que Jesus é blasfemo; que põe em causa as Escrituras; que pode provocar a rebelião de todo o povo e dar pretexto aos romanos para subjugar os hebreus para todo o sempre; bem fazem as autoridades religiosas em querer prendê-lo, julgá-lo e condená-lo; bem fazem em oferecer um prémio de trinta dinheiros a quem indicar o seu paradeiro. Discutem, zangam-se, dão murros nas mesas, entornam jarros de vinho. Mas dormem todos e não dão por isso.

Trinta dinheiros! Não sei como, mas bem vi o nazareno encaminhar-se para o Monte das Oliveiras. Não quero e não vou denunciá-lo. Outro o fará por mim, também sei disso. Como? Isso não sei.

Noite alta, antes de raiar a madrugada, outra vez grande agitação pelas ruas. O nome do denunciante é Judas Iscariote, sabe-se agora. Corremos todos para o Monte das Oliveiras. Povo e soldados, paus e espadas, também archotes. Doze vultos por entre as árvores. Não tentam escapar, alguém os detém. Judas aproxima-se do grupo. Hesita. Depois beija a face de um jovem com a barba rala. Esse o sinal combinado, esse é Jesus. E nele eu reconheço quem ontem à noite me acordou nas ruas de Jerusalém, pasmado fico.

- Qual de vós é Jesus? - perguntam e não precisavam perguntar, já todos sabem quem ele é.

O nazareno dá um passo em frente. Os soldados correm a prendê-lo. Pedro, um discípulo, resiste, reage. Com um golpe de faca rasga a orelha de um servo de Caifás, o Sumo Sacerdote. Jesus intervém, interpõe-se, apazigua. Com um toque de dedos parece-me que sara a ferida do servo. Deixa-se levar, mansamente. Para trás fica Judas Iscariote, fico eu. Levanto um archote, seguro-lhe o braço:

- Porquê?

Não responde e eu insisto:

- Trinta dinheiros? Apenas por trinta dinheiros?

Mete a mão ao bornal. Atira as moedas ao chão. Pisa-as a pés juntos. Não, não e não! Grita que Jesus é veramente o Messias prometido. É o novo David que vem libertar Israel. Contra o jugo romano, deverá impor a sua Lei em Jerusalém. Ao fazer a denúncia, Judas quisera apenas estimulá-lo. Contava que reagisse à ordem de prisão. Esse seria o início da guerra libertadora. Mas não o fez, quedou-se na mansidão, tudo falhou. Judas precipitara-se, fora tudo fora de tempo. Agora grita, chora, geme, tenta arrancar os pelos da barba, até já sangra, bate no peito. Conta-me que ontem à noite Jesus abençoara o pão, este é o meu corpo, e o vinho, este é o meu sangue. A última ceia, dissera ele. A sua última Páscoa nesta vida, a terrena. Como prova de humildade insistira em lavar os pés a todos os discípulos. Anunciara que seria traído. Virara-se então para Judas e dissera faz o que tens que fazer. E Judas entendera que o Messias ansiava pela denúncia. Teria assim um bom pretexto para desencadear a revolta popular, tão amado era ele pelo povo.

- E os discípulos?

- Pedro, Tiago e João foram com ele ao jardim de Ghetsemani. Dormiram.

- E ele?

- Velou. Passou a noite a orar a Deus.

- E tu?

- Corri para Jerusalém. O resto já tu sabes.

Jesus a orar, justamente quando eu estava a chegar a Jerusalém. Afinal dormem todos, até os discípulos. Quando é que iremos acordar?

Desço o Monte das Oliveiras. Para trás fica Judas Iscariote. Compadeço-me da sua solidão.

JULGAMENTO
Chego a Jerusalém. Alcanço e acompanho guardas e prisioneiro. Ninguém tenta deter-me. Anás, sacerdote e sogro de Caifás, é meu tio paterno. É ele quem interroga o nazareno:

- És tu o Cristo, o filho de Deus?

- Tu o dizes.

Anás levanta as mãos aos céus. É gesto largo que lhe conheço desde a infância. Assustador, parecia-me então. Agora, nem por isso, de tantas vezes repetido. E lá vem, em voz grossa, a imprecação do costume:

- Blasfémia!

Rasga-lhe as roupas. E logo os outros também o rasgam, também lhe cospem, também lhe batem. Depois arrastam-no à presença de Pôncio Pilatos. Reparo que o governador romano está enfadado. Vivi três anos em Roma, bem conheço a forma de pensar dos romanos. Este, perdeu de vez a paciência com as discussões teológicas dos hebreus. Reclina-se na cadeira, estende a perna esquerda. Respira fundo, leva a mão direita ao queixo. Vira-se para Jesus. Lá pergunta:

- És tu o rei dos judeus?

- Tu o dizes. Sou rei e vim ao mundo para dar notícia da verdade.

Pôncio Pilatos suspira. Fecha os olhos, por um instante. Quando lentamente os reabre, declara:

- Não lhe encontro crime algum.

Com um gesto despede Anás, soldados e prisioneiro.

Do lado de fora do terraço, a multidão engrossara e assiste à cena. Alguém a gritar que Jesus amotinara o povo da Galileia, por isso deverá ser castigado. A sua voz é abafada por outras.

Jesus é levado à presença de Herodes-Antipas, o tetrarca. A este, conheço-o bem. Para manter desimpedido o seu acesso à cama de Salomé, a pedido desta mandara degolar João Baptista, o profeta que apontava o dedo a todos os pecadores, qual fosse a sua dignidade, qual fosse o seu poder. Numa bandeja de prata oferecera à dona das volúpias a cabeça do profeta. Jesus, ao que me sussurram, é parente de João. O qual, ao baptizá-lo, logo nele reconhecera o ungido, o Cristo, o filho de Deus, o Messias prometido. Até ser assassinado, jamais João se cansara de tal apregoar. É o que me sussurram. Estão todos perturbados com este julgamento. Primeiro João, depois Jesus, parentesco de sangue, também de espírito, estes sim. Embora um, da austeridade fizesse espada. E o outro, da convivência faça a redenção.

Ao enfrentar Jesus, Herodes-Antipas assusta-se. Vejo que já lhe tremem as carnes. Haverá pois semelhança de feições entre Jesus, o nazareno, e João, o degolado. O tetrarca apressa-se a mandar devolver Jesus a Pôncio Pilatos. Cobre o rosto com o manto, pesadelos e retira-se.

Pôncio Pilatos está cada vez mais enfadado. Faz um julgamento colectivo, quatro réus. Jesus, dois ladrões e Barrabás, o homicida. Este começara por matar em nome da liberdade de Israel. Depois olvidara a estrela de David, tomara gosto pelo sangue.

Por escolha da multidão, um dos réus será libertado. A lei romana é magnânima, é isso que os romanos dizem... Os outros réus serão crucificados.

- Quem devo libertar? pergunta Pôncio Pilatos.

- Barrabás! responde a multidão.

Não entendo. Nem Pôncio Pilatos entende a escolha. Aponta Jesus:

- Não caia em mim o sangue deste inocente, a escolha é vossa. Disto lavo as minhas mãos.

Retira-se e, ao retirar-se, outra vez sou acordado. É meio-dia e surge Beit, a segunda letra do nosso alfabeto. Rubra, sangue de verde sombra, clarão sem luz e tudo começa a correr mais depressa, nem acima nem abaixo, nem à frente nem atrás, o antes e o depois fundidos no agora, e tudo vejo de repente, tudo ouço, tudo sei. Vejo Maria a parir num estábulo, em Belém. Ouço profecias de que o recém-nascido será o rei de Israel. Vejo Herodes atormentado, não quer um concorrente. Vejo que manda passar a fio de espada todas as crianças de Belém. Vejo a fuga para o vale do Nilo. Vejo a terra árida. Vejo Maria sentada no jumento, Jesus aconchegado no seu colo, José a puxar a arreata. Vejo que, quatro anos depois, morre Herodes. Vejo a família de Jesus regressar à Galileia. Em Nazaré vejo o menino Jesus a trabalhar a madeira na oficina do seu pai. Vejo que, criança ainda, já começa a trabalhar a alma dos homens, já prega na sinagoga e a todos espanta com a sua sabedoria. Três dias fica a discutir no território sagrado. Maria e José procuram-no, aflitos, e ouço que ele pergunta: não sabeis que estou a cuidar dos assuntos do meu Pai? Vejo-o na plenitude da idade e ouço que recomenda a um homem rico: vende tudo o que tens e dá o dinheiro aos pobres. E a outros ouço que diz: é mais fácil fazer passar uma corda pelo fundo de uma agulha, do que um homem rico entrar no Reino dos Céus. No rio Jordão vejo Jesus a baptizar dezenas e centenas de seguidores. Um deles hesita em receber o baptismo, porque já tem na carne a marca da Lei judaica, é circunciso. Até pela hesitação, que também é minha, nele creio reconhecer Jacob, o meu filho. Ouço que Jesus lhe diz: a água lava as impurezas do corpo. Mas esta água, abençoada por Deus, lava as impurezas do espírito. De todos os espíritos. De homens e de mulheres. Vejo que se decide o indeciso. Ouço que aceita o baptismo e Jesus baptiza-o. Depois ouço um fariseu a censurar Jesus e os seus discípulos por estarem a colher espigas num sábado, dia sagrado de descanso. Ouço que Jesus lhe responde: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. Vejo-o a impedir a lapidação de uma adúltera apenas com uma frase: quem nunca pecou, que atire a primeira pedra. Ouço que diz aos seus discípulos e à multidão que o segue: ama o próximo como a ti mesmo. Sinto e sei que o próximo também pode ser o meu inimigo e Jesus confirma: se alguém te bater na face direita, vira-te e oferece-lhe a esquerda. Ouço que fariseus perguntam quando chegará o Reino de Deus e ele responde: O Reino de Deus está entre nós. O Reino de Deus é assim: um homem espalha a semente na terra. Vai para a cama à noite, levanta-se de manhã e a semente germina e brota. Como isso acontece, ele não sabe, mas acontece. Ouço-o a pregar à multidão: bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles será o Reino dos Céus; os mansos porque possuirão a terra; os que choram, porque serão consolados; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. No Monte das Oliveiras vejo Jesus a lavar os pés aos seus discípulos. Depois, com três deles, vejo que se retira para o jardim de Ghetsemani. Sei que orando está e os outros dormem, Pai, afasta de mim este cálice. Vejo Judas Iscariote por baixo de uma figueira. Acaba de passar uma corda num dos ramos. Já vejo o laço no seu pescoço. Já vejo o seu corpo a estremecer no ar, convulsões. Agora pára, balançado apenas pela brisa. Sei que Jesus desiludiu a multidão. Sei que todos o queriam como filho de David, Messias de espada erguida. Mas prefere a mansidão. Por isso o abandonam, nele se vingam da frustração. Figueiras não há para tantos pescoços que merecem corda. Sei que os olhos de Jesus em mim cravados, outra vez adormeceste. Enganas-te, ó nazareno, não estou a dormir. É o que tu pensas. Mas é a raiva, a raiva, a injustiça, a traição que te fizeram... Quando todos os homens estiverem acordados, todos serão comigo no Reino do meu Pai. Pergunto: quando tal acontecer, onde então a injustiça, onde a traição, onde a inveja, onde a calúnia, onde a cobiça e a avareza, onde a fraude e a arrogância, onde ricos, onde pobres, onde escravos e senhores, onde as armas, onde a raiva, onde a guerra? Para os homens subirem ao Reino de Deus, primeiro é preciso acordá-los. Começa tu por acordar, dá o exemplo, outros virão depois. E por isso te deixas matar, ó nazareno? Só para acordar os homens? Tu o dizes.

Desaparece, desampara-me e sinto que desfaleço. Tombo no poço das trevas.

PÁSCOA
Abro os olhos. Estou deitado numa cama. Olho em volta, um postigo, anoitece. Esta é a casa do meu filho. Foi o meu tio Anás quem mandou que para aqui me transportassem, desacordado estava eu. Jacob sorri, pergunta se eu estou melhor, pede-me a bênção. Abençoo-o. Pergunta-me por que não bati ontem à sua porta. Não sei o que responder.

Levanto-me. Encaminho-me para a outra dependência onde estão Raquel e os meus netos, Sara e Isaac. A todos saúdo. As crianças estranham-me. É natural, há muito que estou fora. Terei que reconquistar o seu amor. Envergo o talit, o manto sagrado. Acendo as velas. Abençoo o vinho e encho a taça de Raquel, a de Jacob e a minha. Refiro as Dez Pragas. E a cada uma que nomeio, nós, os adultos, mergulhamos os dedos indicadores no vinho e deixamos cair uma gota no chão. Abençoo, salpico com sal e distribuo por todos o pão ázimo que Raquel me entrega. Das bolachas que ficam no centro da mesa, retiro e embrulho duas em dois paninhos de linho. Viro-me de costas e escondo-as no meu bornal. As crianças fingem não ver aonde eu as oculto e riem, muito agitadas. Rezo, canto, invoco Moisés e o êxodo do Egipto, a sua busca da Terra Prometida. Recito, lentamente, as palavras divinas: irei libertar-vos do jugo dos egípcios, e os adultos levam as taças à boca, bebemos do vinho. Irei livrar-vos da servidão, outra vez bebemos. Estenderei o meu braço direito, irei redimir-vos, terceira vez bebemos do vinho. Irei tomar-vos por Meu povo, quarta e última vez bebemos do vinho. Pousamos as taças. A todos desejo boa Páscoa. Abraçamo-nos, beijamo-nos. Depois viro-me para as crianças e pergunto-lhes onde está o pão ázimo embrulhado em linho. Rindo, correm para o meu bornal, vasculham e retiram os dois embrulhos. Peço que mos entreguem. Recusam, rindo sempre. Então proponho trocar cada embrulho por uma prenda. Aceitam. Agora sou eu quem vai ao bornal. Procedemos às trocas. A Sara ofereço uma boneca romana vestida de patrícia. A Isaac ofereço um cavalinho de madeira. Pulam, batem palmas, estão contentes, já me tratam por avô. Depois Raquel traz para a mesa os ovos queimados e a perna de cordeiro assada com ervas amargas. A meu lado coloca também uma travessa com salsa, salsão e outras ervas verdes; ainda um prato com raiz forte; outro com uma massa de maçã ralada, nozes moídas, vinho tinto e canela; e por fim uma tigela com água salgada, em memória das lágrimas que os judeus choraram no cativeiro. Comemos, bebemos, conversamos, estamos em paz.

A porta da rua está aberta e, frente a mim, há um lugar vazio, há mesa posta com louça fina e talheres de prata para alguém que há-de chegar mas não chegou ainda. Manda a tradição que assim seja pois, de um momento para o outro, connosco poderá vir o Messias festejar a Páscoa.

Depois da ceia, enquanto Raquel levanta a mesa e as crianças brincam, quedo-me a olhar para a porta aberta. Digo a Jacob:

- Este ano Ele não virá. Está preso e amanhã vai ser crucificado.

Jacob fica atordoado. Melhor diria: atormentado.

- Pai, também tu acreditas que Ele seja o Messias?

- Não sei se acredito. Sei que para ti Ele é o Messias. Bem te vi a ser baptizado no Jordão.

Jacob quer saber como, estando eu em Roma, pude ver o seu baptismo. Não sei explicar, é mistério. Jacob deduz que foi milagre e conta outros:

Jesus nascera de Maria virgem, o Espírito Santo a fecundara com um raio. Uma estrela incandescente indicara a pastores, e aos reis magos, onde render homenagens ao filho de Deus. Quando João baptizou Jesus, do céu desceu uma pomba sobre a cabeça do nazareno, e disse uma voz vinda lá do alto: este é o meu filho bem amado. Jesus foi depois para o deserto, em penitência, e durante quarenta dias Satã, príncipe dos demónios, atormentou-o com tentações. A todas repudiou. Regressou ao convívio dos homens para anunciar: o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai na Boa Nova. Mais tarde Jesus acalmou uma tempestade. Depois andou sobre as águas. E curou um paralítico, levanta-te e anda. E ressuscitou e curou Lázaro, o leproso. E devolveu a vista a Bartimeu, mendigo cego, vai, a tua fé te curou. E transformou a água em vinho. E multiplicou os pães para a multidão faminta que ouvia a sua pregação. E tantos outros.

Mas quem conta estes milagres é Jacob, o meu filho. Não sou eu, nada vi, nada sei. Portanto, disto não dou testemunho.

CRUCIFICAÇÃO
Com as suas lanças, soldados romanos picam os condenados para fora da fortaleza. O povo grita, começa o espectáculo. Os três já foram flagelados, escorre o sangue das suas costas. Há uma coroa de espinhos cravada na cabeça do nazareno. Os condenados vêm jungidos aos patíbulos, que são as traves horizontais das futuras cruzes em que vão morrer. As verticais, a noite passada foram chantadas no cume do monte Gólgota.

Uma mulher, já idosa, corre ao lado de Jesus. Um centurião empurra-a, duas outras mulheres amparam-na. O povo não gosta da cena, o povo não gosta de ver Maria maltratada, não se maltratam as mães. Sinto que já vai mudando o sentimento da multidão. Afinal muito aleija a alma condenar um inocente.

Uma outra mulher, jovem e bonita, com as tranças desfeitas a roçar o chão, também chora e corre atrás do nazareno, Senhor, ó meu Senhor, não nos abandones. Jesus tropeça e cai. Até que se levante, um soldado põe o chicote a morder-lhe as costas, mais gritam as mulheres. Ergue-se o nazareno e continua a caminhar, mas vacilante, vejo-lhe as rótulas ensanguentadas. Vira-se para as mulheres, filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós e por vossos filhos.

Pergunto a Jacob quem é aquela jovem que tanto chora por Jesus. Responde-me que é Madalena, uma antiga prostituta arrependida por interferência da palavra de Jesus. Os fariseus espalharam haver comércio carnal entre ambos. Será calúnia, certamente, porque Jesus não comete impurezas. Não contesto. Não quero discutir a nossa Lei. Tanto mais que há uma Lei escrita e outra que vem da tradição oral. Qual a mais certa? Nunca se chega ao fim da discussão. Quer é parecer-me que o comércio carnal, desde que nem um nem outro esteja a cometer adultério, não é pecado, pois Deus assim nos fez, homem e mulher.

Mais duas vezes cai Jesus, mais duas vezes o chicote morde as suas costas.

E chegamos, por fim, ao monte Gólgota. Os três patíbulos são alçados e cravados às estacas, Jesus no meio. Com espigões de ferro, cravados à madeira são também os pulsos e os calcanhares dos condenados. Desfalecem, a dor é muita, contraio-me, também eu, quase a sinto. Mas um dos ladrões ainda tem forças para troçar da divindade de Jesus. O outro indigna-se e Jesus garante-lhe a salvação, encontrar-se-ão no Paraíso. Um soldado encosta um escadote à cruz do nazareno, sobe e, a mando do governador, no alto prega um letreiro com caracteres romanos: INRI. É a abreviatura de Iesus Nazarus Rex Iudeorum, que significa Jesus Nazareno Rei dos Judeus. Ontem Pôncio Pilatos lavou as mãos. Mas só as mãos...

Ao pé da cruz estão Maria e Madalena e João, um dos discípulos. Mais atrás estou eu e Jacob. Vejo que Jesus levanta os olhos ao céu, ouço que murmura Senhor, por que me abandonaste? Mas logo reage e pede água. Um dos soldados esfrega-lhe a boca com um pano embebido em fel e vinagre. Os soldados romanos, quase todos, e alguns hebreus, já poucos, riem da cena. Jesus murmura perdoa Pai, eles não sabem o que fazem. Um centurião romano, ao tal ouvir, penitencia-se, na verdade este homem é o filho de Deus.

Grande tempestade se aproxima, o dia converteu-se em noite. Ao longe relâmpagos e já vai chegando a Jerusalém o estrondo dos trovões. Contemplo Jesus. Sei que está prestes a morrer. Fecho os olhos e surge Taf, a última letra do nosso alfabeto, quadrado sem base a transformar-se em cruz, assim a desenham os arameus, e negra cruz eu vejo a flamejar em azul e então ouço que o nazareno me diz agora estás acordado. Sai pelo mundo, vai acordar os outros homens. Logo se cala. Abro os olhos e vejo que já morreu. Para confirmar a morte, um soldado romano espeta a sua lança no flanco de Jesus.

RESSURREIÇÃO
Maria, Madalena e João baixaram da cruz o corpo do nazareno. Lavaram-no com bálsamo. Amortalharam-no. Levaram-no para o sepulcro. Até aqui sei eu, vi, confirmo.

No domingo, diz-me Jacob, Madalena foi visitar o sepulcro e o corpo tinha desaparecido, levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Então Jesus apareceu-lhe e mandou que convocasse os discípulos para um encontro na Galileia. E Madalena contou e os discípulos foram e Jesus apareceu-lhes. Tomé quis verificar se era apenas um fantasma, tocou nas feridas e era carne. E Jesus a todos contou os mistérios da salvação eterna e depois subiu aos Céus onde está sentado à direita de Deus-Pai.

Quem tudo isto me conta é Jacob. Portanto, disto também não dou testemunho.

Apenas sei que, momentos antes de morrer, Jesus mandou que eu saísse pelo mundo a acordar os homens. Por isso comecei a escrever, agora termino.

Deixou-se matar para acordar os homens. E eu pergunto: acordaremos?

Créditos
Texto - Vidas Lusófonas
Fotos - O Velho Testamento, O Lado Legítimo, Area Jesus, Religiosidade no Barroco





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